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Cartas aos jovens – a triste história da editora que nunca existiu e o que podemos aprender com tudo isso.

29 maio

Recebi um monte de mensagens, via twitter, msn, skype e etcs nos últimos meses. O teor era algo mais ou menos assim:

Ana, esse caso da Arielli? Você que adora uma polêmica, não vai dizer nada?

A minha postura inicial foi ‘Não’.  Não queria me meter nessa história, que acabou me atingindo indiretamente. Afinal, justo quando começo os trabalhos na Llyr Editorial, estoura a bomba de que a editora novata, surgida no segundo semestre do ano passado, estava enganando a todos. Que ela não existiria como empresa, que não tinha CNPJ, que estava mentindo sobre os lançamentos. Muitos torceram o nariz para a Llyr achando que era algo parecido. (no caso, a Llyr é um selo de um grupo editorial já estabelecido e tem tudo em ordem)

Um pequeno resumo: a autora Nessie Araújo( Vanessa Santana Araújo), que publicou um livro pela editora de edições pagas ABRALI, anunciou sua editora no segundo semestre do ano passado. Prometeu dar espaço e voz para novos autores nacionais. Prometeu grandes tiragens em capa dura. Alegava que eram mais do que apenas uma editora, eram uma família.

Só que…

Os primeiros lançamentos foram atrasando, atrasando, o 1o livro teve um lançamento ao qual ninguém apareceu, não teve fotos porque a máquina estragou e não sobrou nenhum livro. Então, uma autora, inconformada com os adiamentos sucessivos, resolveu romper com a ‘Família Arielli’, e comecei a levantar a lebre: não tinha assinado contrato e seu livro, prestes a ser lançado – nas palavras da própria editora – não constava do catalogo do ISBN. Daí, começou a debandada. Outros autores começaram a exigir contratos, a querer ver documentos. Perante a recusa da editora, também deixaram a ‘família’. Outros batiam pé, defendiam a editora (a pessoa, mais do que a instituição) e por vezes chamavam os colegas de ‘covardes’, ‘mesquinhos’ por estarem fazendo pouco do ‘sonho’ da Arielli.

Mais e mais autores foram deixando a casa editorial. As desculpas da editora eram bem mirabolantes: o ISBN existia sim e ela ia mostrá-lo (apesar da página do ISBN não acusar nada),não mostrava o número do CNPJ por recomendação do seu contador/advogado, ela estava se preparando para ir pessoalmente ao encontro de cada um dos autores remanescentes para levar o contrato…

Só que os livros não apareciam. E mesmo os prestadores de serviço, como revisores e designers, começaram a reclamar que não recebiam pelos serviços prestados… A editora resolveu entrar em reformulação, o blog entrou em hiato assim como a conta no twitter. O site parou de ser atualizado.

Ontem, a única autora que dizia ter contrato assinado e ter visto a documentação completa da editora finalmente veio a público admitir que mentiu. Ela também não tinha assinado contrato, o lançamento não acontecera e ela sustentara a mentira por acreditar que seu livro seria lançado.

Enfim, a coisa foi bem complicada. A mim, parece que foi um caso agudo de incompetência da pessoa responsável, que achava que editar livros era uma atividade fácil e pouco custosa, misturado com o desespero de um bando de jovens autores que querem conquistar um espaço ao sol, custe o que custar. Deu no que deu. Quando bateu a burocracia, os custos, o trabalho… o caldo desandou.

Os atingidos pela farsa foram, em sua maioria, jovens autores. Quando digo jovens, quero dizer jovens MESMO. Crianças de 16 anos correndo atrás de um ‘sonho’.

Ontem o assunto voltou a baila porque finalmente a única autora a dizer que seu livro tinha saido da forma correta, com ISBN e contrato, voltou atrás e disse que nada tinha acontecido, não tinham livros nem nada. Isso reacendeu a fúria dos seus ex-colegas de editora, que foram lesados, se sentem enganados e traídos.

Então, vamos aproveitar o assunto e esclarecer algumas coisas.

Publicar um livro pode ser a realização de um sonho. Mas ser um Escritor é trabalho duro. Escrever, aliás, é a parte mais fácil, aquela que você faz por ser o seu destino, o seu talento… o seu sonho. Depois, tem todo o resto. Revisar, escolher leitores beta, apresentar seu trabalho para uma editora, escolher a melhor proposta (sim, você pode receber mais de uma proposta, principalmente se estiver disposto a pagar pela publicação).

É trabalho. É profissão. Tem que ser encarado assim, PROFISSIONALMENTE.

(Claro, se você só quiser publicar por publicar, para empilhar os livros na sala de casa e ficar olhando, é um país livre…)

E como se encara a atividade de escritor profissionalmente?

1- Antes de fechar qualquer coisa, PENSE. A editora é recente? Já lançou algum livro antes? A pessoa responsável pela casa editorial tem alguma experiência no ramo? E experiência mesmo, de lançar livros por outras casas editoriais sem ter pago, ter trabalhado na organização de coletâneas profissionais…

E isso não vale só para editoras. Ano passado, rolou um caso de um sujeito que se dizia agente, recolhendo originais para apresentar para as grandes editoras. Tudo uma grande mentira.

2- EXIJA ver toda a documentação. Claro que no caso da Rocco você sabe que ela existe e tal, que tem CNPJ. A Draco também. E a Tarja. E a Aleph. E a Devir.

Mas a ‘Livros Que Eu Amo Edições’, que ainda não tem livros no catalogo, nem presença no cadastro do ISBN tem que mostrar o CNPJ. Desconfie de qualquer desculpa do tipo ‘meu contador disse que não devo mostrar o numero por aí’. CNPJ está na nota fiscal da empresa, no seu carimbo oficial. Não é segredo de estado.

3- Fechar com uma editora é quando os dois lados assumem um compromisso . Ou seja: assinam um  CONTRATO. E isso deve ser feito antes do livro ir para a preparação de texto, antes de decidir capa. É o primeiro passo da relação profissional. É essencial para a sua segurança – e a da editora. Sem contrato, você pode simplesmente mudar de editora a vontade.

4- A relação autor-editor é uma relação PROFISSIONAL. Nada impede que vocês sejam amigos, tomem chopp juntos, sejam marido e mulher. Na hora de tratar do seu livro, são dois profissionais se entendendo. Chantagens emocionais, ameaças veladas do tipo ‘Então, você não confia em mim? Mas pensei que fossemos amigos!’ são um péssimo sinal.

5- Desconfie de promessas exageradas. Ninguém faz tiragem de 5000 cópias de autor iniciante. Ninguém vai te colocar na lista de mais vendidos da Veja em 1 semana. Ou te levar no Jô, Ou publicar você pela Tor, te transformar na JK Rowling…

6- Procure sempre o conselho de alguém mais experiente. Pai, mãe, um escritor com mais tempo de mercado, um advogado para ajudar nas questões legais. Converse, desabafe, tire suas dúvidas. E escute. E respeite a opinião deles.

7- Não tenha pressa para publicar. Se aquela editora não parece confiável, não trabalhe com ela. Procure outras, espere um pouco. A pressa pode fazer com que você se afobe e caia em armadilhas como a que originou esse post.

Aos jovens autores prejudicados, que tiveram seus ‘sonhos’ atrasados ou partidos: encarem isso como uma boa-vinda ao mundo editorial. Aqui é realmente um lugar duro com aqueles que acham que sonhar basta, e que é só esperar que os puros de coração terão seus desejos realizados. Em contrapartida, para quem não tem medo de trabalhar e batalhar da forma correta por seu lugar ao sol, é um lugar muito divertido. Não deixem de sonhar, mas mantenham os pés no chão e os olhos no caminho a ser seguido.

 

(Momento de propaganda: escrevi uma pequena apostila sobre os primeiros passos para publicar um livro. Irei publicar uma versão mais vitaminada pela Editora Estronho, mas por enquanto vocês podem lê-la aqui)

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16 Comentários

Publicado por em 29 de maio de 2011 em Cartas aos jovens

 

16 Respostas para “Cartas aos jovens – a triste história da editora que nunca existiu e o que podemos aprender com tudo isso.

  1. J.R.Pereira

    29 de maio de 2011 at 19:17

    …mesmo porque, com a chegada dos tablets e das redes sociais, pra que editora?
    Esse sonho de querer publicar por editora é bem bacana mas existem trocentos outros caminhos que nos levam a mesmíssima satisfação.
    E não nos leva a qualquer tipo de armadilha.

     
    • Rogério

      6 de abril de 2012 at 15:06

      Concordo com este comentário. E tem mais, se o autor quiser pode vender o livro em formato digital. Se for publicar em papel, basta ter os programas certos e uma boa impressora. Depois divulgar nas redes sociais. Porém essa questão de ser bom ou mau escritor, é relativo, eu por exemplo acho que o Paulo Coelho nem pode ser considerado escritor, de tão ruim que é.Porém o marketing pessoal em cima dele é grande, aí…

       
  2. Larissa

    29 de maio de 2011 at 19:19

    Isso gerou uma polêmica… Também fiquei me perguntando o que de fato estava acontecendo, e não entendi o fato da editora Chefe se recusar tanto a dizer o CNPJ, até no papo fantástica que ela teve a chance de se defender, recusou. Isso serve como aprendizado… Agora me pego imaginando se ela está rindo de todo mundo que enganou…

     
  3. Cirilo S. Lemos

    29 de maio de 2011 at 19:26

    What a Wonderful World do Louis Armstrong seria uma boa trilha sonora para esse momento.

     
  4. Zé Wellington

    29 de maio de 2011 at 19:31

    Bom texto. Quando se vêem tantas chamadas pela internet de editoras procurando autores, acredita-se o livro vai surgir fácil no papel.

     
    • J.R.Pereira

      29 de maio de 2011 at 21:00

      Na verdade é muito fácil publicar. É só pagar pros caras, tipo nessas editoras que não passam de gráficas rápidas e printo. Tá cheio delas por aí.
      O que complica é a profunda ignorância dos aspirantes a autores: eles, primeiro, não sabem escrever. É incrível dizer isso mas é verdade.
      Segundo, além de não saberem escrever, acham que sua “obra” merece ser publicada só porque mamãe gostou.
      Terceiro, as editoras quase sempre não tem uma política de recebimento de originais. Largam tudo de qualquer jeito mesmo, não respondem e são de uma descortesia a toda prova.
      Por isso que a publicação digital vem libertar o autor dessa situação absurda: se ele escrever porcaria, ainda assim, terá quem goste.
      E as editoras vão todas lamber sabão!

       
  5. Anderson Vagner

    30 de maio de 2011 at 0:23

    O caminho nem sempre parte de publicação editorial, as vezes na internet se consegue espaço a geração tablet cresce de forma rápida e objetiva.
    É triste ver o sonho de pessoas sendo adiado desta forma, sim usar adiados por que mesmo com esse revés não se deve perder o sonho, mas na próxima vez é melhor se informar como o post diz a informação sempre é a melhor arma!
    Sucesso!

     
  6. J.R.Pereira

    30 de maio de 2011 at 1:18

    Editoras estão obsoletas. Assim como a visão desses “autores” que sonham em publicar.

     
  7. Henrique arake

    30 de maio de 2011 at 16:10

    Prezados, não se enganem. Editar e publicar um livr é muito, mas muito mais, do que simplesmente imprimir, fazer um pdf e colocar por aí. Outra coisa, “editora séria” não significa “editora famosa”.

    Aos futuros autores, não existe almoço grátis. Qualquer empreendimento envolve investimento em procura e negociação. Se a esmola é demais, problema do santo que não desconfiou. Enfadem essa perda como um investimento em educação empreendedora e bola pra frente!

     
  8. Heitor V. Serpa

    30 de maio de 2011 at 16:16

    É aquela coisa… Com o advento da internet, qualquer um pode “correr atrás de seus sonhos”. A meninha, ao invés de deixar seus devaneios no diário, agora posta no blog e tem meios de acreditar que vai ser a Stephanie Meyer dos pobres. Mais ou menos por aí.

    A Arielle com certeza não é a única: eu mesmo já participei de “projetos-mirabolantes-que-vão-mudar-o-mercado-editorial-sou-foda-diguidin-diguidin”, que por motivos óbvios não foram para frente. Agora, o que fez a falsa editora ganhar tanto destaque, isso eu não faço idéia, mas rende outro texto facim, facim.

    Ótimas as dicas também Ana, fica de alerta pro pessoal mais novo (falou O ANCIÃO agora). Meus parabéns pela postagem!

     
  9. Josy Tortaro

    30 de maio de 2011 at 18:25

    Bom texto. Sonhar é preciso, porém na hora de publicar precisa colocar os pés no chão e escolher uma editora, não com renome, mas que seja honesta. A editora torna o livro palpável, mas ser conhecido precisa de uma boa divulgação. Boa sorte a todos os escritores nacionais.
    Vamos apoiá-los: #EuApoioAutoresNacionais

     
  10. J.R.Pereira

    30 de maio de 2011 at 20:00

    É só seguir uma única regra: SER LIDO.
    Se o pessoal te lê, já é um começo.
    Publicar é consequência.
    Mas se ninguém te lê, então nem tente nada. Pois tá assim de aspirante a escritor por aí que acha que o mundo tem por obrigação lhe publicar.

     
    • Matheus A. Quinan

      31 de maio de 2011 at 0:14

      Cara, não é só questão de colocar seu trabalho acessível.
      Uma boa editora, além de não cobrar pela publicação, deverá fazer a divulgação do seu livro. É interesse dela que a obra seja vendida. Uma editora tem muito mais meios para conseguir isso do que um autor sozinho, com seu PDF (ou seus 1000 exemplares impressos por uma gráfica qualquer), não importa a quantidade de contatos que ele tenha.
      Claro, uma boa editora.

       
  11. Josué de Oliveira

    31 de maio de 2011 at 13:52

    Previsões apocalípticas sobre o fim das editoras e coisas do tipo: BLÁBLÁBLÁ.

     
  12. J.R.Pereira

    31 de maio de 2011 at 14:16

    Matheus, tornar seu trabalho acessível significa que mais e mais pessoas…
    Te lerão!
    É meio óbvio ter que dizer isso, porque parece que a máquina travou e a ficha não caiu, mas a obrigação de TODO escritor é ser LIDO!
    E pra ser lido ele precisa ser ACESSÍVEL!
    Claro que publicar é importante e tals, mas não adianta nada você publicar pela editora A ou B…
    Se você não tem leitor!
    Se você não é lido.
    Como é que uma editora vai investir, sei lá, 20.000 reais num autor que ninguém conhece, que ninguém viu, que nunca produziu nada e que nem blog tem, nem amigos no faceboob ou Orkut?
    Vai vender o livro PRA QUEM? Pra mamãe e pro papai? Não, né?
    Por isso, pra obra ser vendida, não tem jeito: ou você leva uma baita idéia fantástica pros caras e que tem mercado que consuma, ou você carrega junto seus leitores, ou trabalha com nicho de mercado ou seu livro vai ser vendido pro Estado.
    Naturalmente que a editora tem meios técnicos e profissionais pra viabilizar muita coisa.
    Mas, nos dias de hoje, editora está se tornando um troço OBSOLETO!
    Se você tem produção, se tem rede social, se tem quem te leia, se tem quem te compre os livros digitais…
    Pra que editora?
    Além do que, o autor ganha mais vendendo seus produtos digitais do que se for ficar no esqueminha dos 10% do direito autoral de uma tiragem que não sai nunca.
    A única coisa boa da editora é a impressão.
    Que você pode fazer por conta própria.
    E aí?

     

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